O lençol amarelo


Ele sentia que faltava uma parte sua. Sempre sentiu. Quando completou onze anos ouviu sem querer uma conversa secreta entre duas tias suas. Uma delas falou sobre um “outro”. E escutando o resto da conversa, soube de meias verdades. Foi indagar a mãe. E esta, quando questionada, já chorando, não se negou a revelar. Ela própria ainda criança, com gêmeos no ventre, numa gravidez não planejada, dado à situação financeira do jovem casal, decidem dar os dois tão logo nasçam. Entretanto, depois do parto, a mãe adotiva desiste de levar os dois meninos, levando somente um deles. A pobre mãe se apega ao que restou, e resolve resgatar o outro, porém a outra criança sumiu com a nova família. Diante de tal narração, o chão dele desmorona. Ele não consegue acreditar na possibilidade de ter mais um irmão além do caçula, aliás, um irmão gêmeo. E como que previsível, morando numa cidade pequena, um dia eles teriam de se encontrar. Isso aconteceu quando ambos na idade de dezesseis anos. O que foi adotado, não aceitou a família biológica, sentiu-se descartado devido aos acontecimentos do passado, e preferiu ignorar a existência de um irmão gêmeo. A decisão foi respeitada por todos. Mas o destino insiste em brincar com a humanidade. E eles voltaram a se encontrar seis anos mais à frente. Agora amigos, companheiros. Em dois dias estavam tão unidos quanto nos meses em que passaram dentro do útero. Dentre conversas intermináveis sobre a vida um do outro, passeio aos mais diversos lugares, eles, em poucas semanas fizeram tudo que deveriam ter feito se tivessem crescidos juntos. E o destino ainda sim quis enrolar mais a trama. Tanta saudade um do outro, tanta amizade, tanto afeto, não desencadearia em outra coisa que não uma atração mais que familiar. Um passou a desejar o outro, secretamente. E assim, numa noite qualquer, os dois, que até então dividiam o mesmo quarto, acharam de naquela mesma noite, dividir o mesmo lençol amarelo.

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