Todos os dias a menina pegava um banquinho velho do canto da sala. O
arrastava até a janela, ainda bem cedo, quase que junto com o raiar do sol. E
ficava olhando para rua esperando a moça de amarelo passar. E parava-se o dia
todo à janela, a despeito do pai que sempre lhe ralhava para que fosse fazer
alguma outra coisa. Mas a menina era persistente. E ficava debruçada ao mármore
da janela, olhando para as pessoas cruzarem a esquina, tentando adivinhar a
felicidade delas, enquanto esperava a sua própria felicidade: ver aquela moça bonita,
sempre vestida de amarelo, a quem tomava por espelho. Ás vezes, a menina se
enganava, via uma mulher de amarelo passar, pensava que era ela, mas não era.
Sentia uma solidão. A chuva sempre vinha pela tarde, os pingos de chuvas
escorriam pelo vidro grosso da janela. A menina olhava para chuva lavando as
calçadas, a água escorrendo pela sarjeta, e os cachorros brincando felizes nas
poças. Sentia uma dor. A noite chegava. E com escuridão, a menina pega um candeeiro
enferrujado e sujo, e o acendia. O cheiro de querosene queimado invadia suas
narinas. No escuro da rua, quase não conseguia distinguir as pessoas, via
apenas vultos. Mas ficava atenta ao movimento dos vultos, daquele vulto amarelo,
que podia ser ela, a moça bonita. A chuva não parava. O barulho da água caindo
da ilharga do telhado para o chão de terra batida da frente da casa fazia com
que a menina adormecesse. O pai, com pena, dava-lhe um beijo na fronte, e a
carregava até a cama. Depois de algumas horas, lá pelo meio da madrugada. A
menina acordava assustada, e vendo que estava em seu quarto. Corria apressada
para a janela. Aquela mesma janela. E então, percebia que não tinha visto a
moça de amarelo passar. Sentia solidão e dor, que passaram a ser constantes.
Mas um dia a dor passou um pouco. E a solidão também. A menina que esperava a
moça passou a esperar ser a moça. Sempre vestida de Amarelo. E assim a espera
mudou.

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